domingo, 1 de maio de 2022

O ganho que a perda nos traz.

 Geralmente abordamos nossos conflitos a partir do sofrimento e nos perdemos das capacidades que nos diferenciam das partes em conflito. Quando isso ocorre há uma tendência a se anular o 'si mesmo' e se tornar uma presa das crenças e dos Estados de Ego emocionalmente disfuncionais, formados a partir dos restos emocionais das experiências traumáticas de perda, agressão, abandono, etc.

Depressão e ansiedade não são um destino a não ser que nos deixemos levar por essa falta de sentido de si mesmo que estava oculta enquanto o eu se inflava orgulhoso, pelo contexto, por aquilo que vinha dos outros, como elogios, amor, reconhecimento profissional,... pela falsa sensação de segurança absoluta obtida pelo ideal de superioridade. Parece que a maior capacidade do 'eu ideal' é difundir a ilusão de que o 'si mesmo' é mais do que realmente é. E é essa ilusão que faz pensar que a cura da perda será obtida pelo retorno da mesma condição, o que só alimenta a repetição neurótica.
O processo terapêutico adequado, ou a forma adequada de elaboração, é a que ajuda ao 'si mesmo' a assumir a liderança separando o passado do presente, o imaginário do que é real, o interno do que é externo e a realizar o discernimento entre o eu engrandecido, que se definiu a partir do desejo do outro, feliz enquanto era escravizado, daquele que se realiza pelo próprio desejo, ou pelas próprias capacidades.
Nesse si mesmo esclarecido, desiludido, redimensionado pela humildade, (que tendemos a evitar pois o 'eu ideal' tende  a interpretar como inferioridade, mas que na verdade é a função que nos permite ver as coisas como são e não como gostaríamos que fossem), pode então prevalecer o amor próprio como suporte da dignidade que sustenta o amor pelo outro, como um transbordamento e não como uma dependência ou um remendo da autoestima. Esse si mesmo esclarecido, se revela depois que o luto o libera; não exclusivamente do objeto perdido, mas principalmente, do fracasso do eu autoengrandecido. Uma ilusão de superioridade através da qual o 'si mesmo' se definia.
O sofrimento pela perda de um amor ou de um lugar de importância requer um processo de luto que se dá diferenciando o objeto perdido da ferida narcísica aberta,  à qual tendemos a dar mais importância.
É desse si mesmo libertado das suas ilusões que descobrimos que o prazer de amar é maior do que o de ser amado. Que importa mais dar sentido à vida do que esperar que o sentido venha dos outros. 
Esse é o ganho que a perda nos dá. 

terça-feira, 30 de novembro de 2021

 


Compaixão: uma breve reflexão

Antonio Ricardo Teixeira – Psicólogo clínico

Ouvi o termo compaixão pela primeira vez, há muitos anos, quando tomei contato com o budismo. Nunca soube ou encontrei em nenhum texto psicanalítico qualquer referência à compaixão. Capacidade de amar, sentimentos sociais, empatia, sim. Isso é compreensível uma vez que todo esforço da psicanálise é no sentido de estruturar um eu capaz de se relacionar com o inconsciente e com o mundo. Isso parte da ideia de que existimos separadamente em relação aos outros e ao mundo. Um psicanalista poderia ainda fazer uma “pegadinha” com a palavra com (acompanhado)- pai (Lei) – chão (Princípio de realidade). Porém, no budismo o termo é empregado para descrever outro tipo de compreensão. Diz-se que quando Sidharta Gótamo se iluminou, ou seja, despertou para a natureza profunda da realidade humana em si, passou a ser chamado de buda, que quer dizer, aquele que se libertou de todo sofrimento. Daí, ao compreender a natureza do sofrimento, e dela se desapegar, também chamado de ignorância, sentiu uma enorme compaixão por todos os seres e resolveu compartilhar seus conhecimentos adquiridos através da prática intensa da meditação. Seu conhecimento não se restringia a uma mera compreensão intelectual. Ele também propôs um método prático que consiste numa conduta moral e na prática meditativa que conduz à sabedoria.

Podemos ver a compaixão em três níveis de compreensão. O primeiro é saber que existem pessoas que a sentem e desenvolvem ações supostamente benéfica para os outros. O segundo é quando intelectualmente tentamos definir o termo comparando-o e diferenciando-o de empatia, simpatia, piedade, pena e solidariedade. Cada um, a partir do seu nível de compreensão, busca a melhor definição, confundindo ou esclarecendo que compaixão nunca será uma forma de perpetuar a ideia de que existimos separadamente, pouco havendo o que nos una, pois a compaixão emerge quando a temos como uma experiência de dissolução das várias camadas que chamarei aqui de “estados de ego”,  que é o terceiro nível de compreensão.

Tentar buscar definições intelectuais sem tê-la como uma experiência é dar à compaixão um caráter piegas. Através do budismo entendemos que alcançar tal nível de compreensão depende de uma profunda renúncia a se estabelecer como um ego diferenciado e sólido. Precisamos de suficiente humildade para dizer que, de onde estou agora, não consigo alcançar tal compreensão. Mas, posso entender o que a compaixão não é. Não é uma consciência moral, por exemplo, pois essa vem do senso de dever para com o outro e faz parte de um pacto social no qual tentamos proteger as relações humanas. Se assim o fosse, a compaixão seria uma tentativa de empurrar para o fundo da consciência todas as cargas negativas que poderíamos projetar nos outros que resultariam em agressões frente ao que nos ameaça, negligência diante das necessidades dos outros, ou indiferença no que se refere ao sofrimento alheio. Isso colocaria a compaixão numa polaridade, oposta ao que foi acima descrito. Ou seja, a compaixão emerge quando cessam as polaridades.

A compaixão também não é uma expressão de um ego que se enobrece pelo ideal de superioridade narcísica. Neste caso, a compaixão se apresentaria como uma forma de inferiorização do outro por suas necessidades, temores, sofrimentos e condicionamentos limitantes.

Podemos dizer que a solidariedade é uma expressão do ego que se reconhece tão débil quanto o outro em seu desvalio. Encontraremos solidariedade entre os torcedores de um time de futebol que acabou de perder um campeonato. Entre profissionais de saúde assoberbados pelos traumas da covid. Entre familiares ou grupos que se unem por uma identidade comum. Também podemos encontrar solidariedade pelos que passam fome, são vítimas de qualquer tipo de agressão, etc. Um colega de trabalho que foi humilhado pelo chefe pode receber solidariedade dos colegas. Mulheres podem se unir solidariamente contra homens violentos. Mas, não podemos dizer o mesmo da compaixão pois essa engloba a condição humana e sua propensão ao sofrimento. E também a tudo que vive, incluindo animais e plantas. Não há sectarismo na compaixão pois ela tem um caráter universal.

Aqui vemos que é mais fácil dizer o que ela não é, pois, para experimentarmos compaixão no sentido budista, precisamos de um processo meditativo que nos leve aos planos mais elevados da mente. Ou melhor: do sistema corpo-mente-energia. Quando a compaixão envolve um ato de solidariedade, não há nenhum interesse pessoal em tal ato. Psicanalistas, filósofos ou qualquer pessoa que tente elaborá-la, têm a mesma dificuldade de definir compaixão para além do intelecto sem dispor da experiência meditativa. Só conseguem vê-la em termos intelectuais.

O escritor e terapeuta corporal Sérgio Veleda* (Autor do livro "budismo: a arte de equilibrar-se sobre um fundo vazio"), numa conversa pessoal, lembrou que no "Mahayana budista, sabedoria e compaixão são indissociáveis... a compaixão brota de uma visão clara, limpa, pontiaguda e penetrante da sabedoria. A visão de que nada é sólido e que a vacuidade é o campo da compaixão, no entendimento supremo do sofrimento". Isso nos diz que só a compreenderemos se a tomarmos como efeito de uma transcendência. Porém, tal compreensão costuma ser obliterada pela confusão mental causada pelas certezas criadas pelos sistemas de pensamento que tentam dar solidez ao insólito.  Ou pelo que podemos chamar de barreiras narcisistas de contato que se alimentam da cobiça, do apego e da aversão.

Lembro-me de uma estória contada por Claudio Naranjo em seu livro "Entre meditação e psicoterapia". "Um peixe começou a perguntar para os outros peixes se sabiam o que era água. Alguns diziam que já tinham ouvido falar, outros nada sabiam. Então, resolveu nadar pelos mares em busca de uma resposta. Quando voltou já estava velho e uns daqueles que o conheciam lembraram-se dele e lhe perguntaram: você encontrou a resposta? descobriu o que é água? Ele então disse: Sim. Mas se eu lhes disser, vocês não vão acreditar".

domingo, 20 de dezembro de 2020

O amor e suas inquietantes questões

 

O amor e suas inquietantes questões.

Autor: A. Ricardo Teixeira Psicólogo


Amor. Que tema amplo! Que confusão e que grande solução para a vida! Será que um dia o amor será capaz de evitar novas guerras?
O que dizer do amor através do tempo? Seria mais apropriado então falar de amores. Mas aí, não é só dele que se trata senão dos objetos de amor. Do amor entre dois.
Só sei que o melhor amor é aquele que se vive no presente. No agora. Do passado só boas lembranças e aprendizados.
Mesmo temendo os egos dos amantes.
Sim! O maior perigo que o amor vive vem dos egos dos amantes. Seja amor a dois, a três ou a todos. Quando o amor vai além de seus objetos.
Mas, o que seria do amor sem um bom ego para administrar sua intensidade desmedida e sua tendência à expansão?

Não. O amor não precisa de um ego fixo e controlador. Precisa que os amantes nele confiem e não que dele desconfiem.
Tomado pelos estados de egos*, o ato de amar se torna egoísta. Quer tudo só para si. Nesse caso ele, o amor, adoece e morre, pois, prefere morrer a servir ao ego inflado por sua ganância, seu consumismo e pretensão. Isso faz o amor rimar com dor. 
Quando o ego é sofrido por nunca o ter conhecido, ou por não saber como absorvê-lo, se constrange diante da grandeza serena do amor e tende a fugir. Foge da dor do amor frustrado que nunca deixou que entrasse em todo o seu ser. Se refugia nas representações que o definem. Faz prevalecer a tendência neurótica do ego sob a forma de narcisismo. Opta pelo isolamento ou pela popularidade, onde segue as tendências da moda, revisitadas em diversos modos de realizar desejos sem profundidade. Torna-se um verdadeiro consumista de sexo fácil, superficial e descartável. É impulsivo, imediatista e voraz na busca insaciável pelo preenchimento do vazio e da pobreza de sentido que tem todas as vidas que não se empenham em se superar. É mal humorado diante do que não lhe convém e permissivo como se tudo que reflete uma superficial liberdade de ser fosse o ideal da vida.

Porém, se confunde e se perde de si diante de uma proposta verdadeira de amor.  Se aceitar a angústia que amar de verdade lhe trará, poderá sobreviver aos temores, mas, terá que aceitar a transformação que isso vai lhe causar.
O ego, diante do amor, assume várias formas. Umas tangíveis pela consciência. Outras silenciosamente vão assumindo o controle da situação, não deixando que o amor se desenvolva.

O ego pode ser fugidio e covarde impedindo que o amor entre e se estabeleça tão logo a paixão acabe. É nessa hora que o ego do outro é avaliado. Enquanto na paixão o outro é encantador, no amor o que vai aparecer é a admiração. Através da admiração o amor oculto vai se revelar e ter em que se apoiar. O ego só é admirável quando pode abrir mão de uma parte do individualismo para recebê-lo. Porém, irá enfraquecer o seu crescimento se agir com manipulação e distanciamento. Só o ego humanizado pela humildade frente ao fracasso do ego ideal é capaz de sustentar o amor entre dois seres igualmente vulneráveis e influenciados pelo amor mútuo. Para isso é preciso aceitar que só perdendo se pode ganhar. Aí vai poder dizer: preciso de você porque te amo. Preciso de você para poder amar através de alguém que também sabe renunciar ao que não é para poder realizar o que tem.
Se o ego é frágil, carente e submisso tende a se anular frente a dependência do objeto de amor. Afinal, sua pobreza, que pode não ser material, não o deixa desfrutar da riqueza do amor.  A mensagem profunda da riqueza material não é a soberba nem a posse. Mas, a capacidade de absorvê-la na sua forma mais preciosa: O amor. O ego auto desvalorizado também desvaloriza o amor. Mas, o ego auto inflado é uma armadilha.
Soberbo, solidário, inseguro, evitativo, empático, controlador, orgulhoso, dominador, submisso, honesto, egocêntrico, cuidadoso, irado, apoiador, carente, invejoso, ciumento, possessivo, competitivo, vítima, fantasioso, voraz, ávido, angustiado, julgador, medíocre, acolhedor etc. muitas são as possibilidades que os egos dos amantes podem assumir.

Quando o ego não mais disfarça suas tendências neuróticas ou virtuosas, honestamente assume sua ignorância diante do amor, que se expressa por suas próprias leis,  se curva diante dele e o deixa crescer.
O ego precisa entender que sua presença se torna desnecessária quando o amor encontra eco e sentidos nas trocas fluidas dos corpos. Ou na renúncia materna, no cuidar dos filhos ou de alguém necessitado. Ou ainda na dedicação a uma causa. Só a sua renúncia fará o amor preencher todas as células do corpo, uma vez que este é, em essência, uma qualidade pulsátil.

Se estiver dissociado do próprio corpo, o ego do amante tentará apreender o amor através da mente o que restringe a percepção da dimensão transcendental do amor. Trata-se de poder captar o amor através da experiência que está além das palavras. Perceber que existe diferença entre o amor do ego e o amor do ser que se mostra através da dimensão mais ampla e profunda da consciência captada como uma percepção sensorial.
O nascimento e fortalecimento do ego se dá no campo da ameaça. Egos nascem e crescem através das onipotentes batalhas infantis em defesa do desamparo, da dor, da constatação da assimetria entre si mesmo e o outro a quem se ama parcialmente enquanto dele se depende; a mãe. O ego em formação é imaturo e alterna entre o amor e o ódio que estão na base da ambivalência da qual o adulto aprende a reconhecer e a renunciar. Se sente inferior mas é pretensioso ao forjar superioridade para mascarar sua inconsistência.
Quando o ego adulto reconhece sua assimetria  frente ao  ego do outro, renuncia a si mesmo como quem se lança no abismo confiante de que será amparado pelo amor. Esse reconhecimento é efeito do tempo e do trabalho psíquico através de suas próprias experiências. É quando a história pessoal é revisada e ressignificada. E deixada de lado para dar passagem ao novo. Exige coragem e paciência consigo mesmo.
Aí então se forma um vínculo amoroso. Caracterizado pela confiança mútua na comunicação sincera e despretensiosa. Sem medo de ser quem se é de verdade. Sem querer competir por uma falsa superioridade. É o fortalecimento do vínculo amoroso que fará vencer as tendências críticas geradas pelo julgador interno. O vínculo amoroso sabe comunicar as contradições do ego sem permitir que a vergonha pela vulnerabilidade humana seja objeto de ataque crítico.
Vínculo amoroso é uma forma de comunicação entre os seres que trocam entre si os mais diversos assuntos. Desde o que vamos comer hoje até os anseios e questões mais complexas da existência. Permite o dar e receber que reconhece a importância da satisfação e do bem-estar do outro. O vínculo amoroso permite que a troca seja justa. Apoia o crescimento mútuo. Se alegra com a alegria do outro.   É empático e solidário diante das diferenças individuais, do sofrimento e dificuldades do outro.
O vínculo amoroso é uma via de mão dupla que dá acesso ao ir e vir do desejo, na forma própria em que se apresenta em cada um.
É quando são desconstruídos os mitos e falácias sobre o amor ideal, que é uma forma de tentar controlá-lo,  que o vínculo amoroso permite que a capacidade de amar seja nossa maior fonte de energia. O que mais pode o ego liberto de suas demandas infantis querer do seu objeto de amor senão a possibilidade de amá-lo?

sexta-feira, 27 de março de 2020

ELES NÃO SÃO IDIOTAS

Eles não são idiotas
Desde que o diretor geral da OMS, Tedros A. Ghebreyesus avisou que estamos passando
por uma pandemia, vários infectologistas e epidemiologistas avisaram que a velocidade de
propagação do vírus era enorme e que a quarentena é uma questão de sobrevivência pois
nenhum sistema de saúde no mundo poderia dar conta de atender à todos os infectados.
No entanto, muitos resolveram negar a gravidade da situação e passaram a apresentar
justificativas baseadas na queda da produção econômica e seus danos. Negar que sobreviver
é mais importante do que manter a produtividade, empregos, etc. não é uma mera idiotice.
Demorar a ver a gravidade de uma situação tem a ver com a maneira como a pessoa lida com
o que pode afetar seu senso de equilíbrio, o risco. Enquanto alguns são (até excessivamente!)
previdentes cuidando preventivamente da saúde e da sua segurança financeira, outros vão
em frente sem imaginar que possam ser afetados. Quando os prédios da Muzema caíram
um engenheiro especialista em construção em áreas vulneráveis disse que "o brasileiro
tende a ter baixa percepção de risco". Ou seja, tende a se proteger do infortúnio através
do pensamento mágico. Isso é assim em todas as classes sociais. Ricos, classe média ou
pobres. Os incautos sempre têm uma defesa (racionalização) para não aceitar que precisam
se reorientar, reposicionar e/ou se reinventar. Enfrentam precariamente seus medos atacando
os mensageiros. Quando estão perto de perceber que suas próprias conclusões estavam
erradas, pois a realidade se mostrou discrepante, passam a se defender com agressões e
xingamentos. Até então, supostamente ainda estão no controle da situação. O analista sabe
que estão se defendendo de uma percepção traumática que pode se despertar profundamente
trazendo desespero, dor, pânico e desamparo. Eles não são idiotas porque negaram o perigo!
Estavam apenas se defendendo para não cair no desamparo emocional. Só que, quanto mais
se aproxima o aspecto crítico da situação, mais agressivos tendem a se tornar. Portanto,
não alimentar polarizações politico ideológicas nessa hora é uma boa forma de evitar que
a pandemia vire um pandemônio. Paciência com os incautos pois eles não são capazes
de enfrentar o perigo sem se deixar devastar. Logo terão que recuar diante do óbvio. E aí,
precisarão mais de amparo do que de críticas. Afinal de contas, "as coisas caem por seu próprio
peso"! A. Ricardo Teixeira Psicólogo clínico.

domingo, 22 de março de 2020

Reflexões sobre EMDR online


Reflexões sobre EMDR online
Autor: A. Ricardo Teixeira Psicólogo Clínico CRP01-6578 (Ex-CRP05-8613) Supervisor de EMDR.
Introdução
As psicoterapias em geral seguem as tendências atuais de que tudo deve ser consumido rapidamente. EMDR desperta essa tendência. Talvez você já tenha contado o número de páginas deste texto e está decidindo se vai lê-lo todo ou apenas algumas partes. Eu também faço isso, muitas vezes. Porém, quando o assunto diz respeito à minha prática clínica, sou mais lento. Procuro absorver cuidadosamente as palavras até alcançar seu sentido mais profundo. Se você quiser seguir esta sugestão, espero que encontre o mesmo prazer que tive em escrevê-lo. Ao final você pode encontrar meu email e me enviar suas observações, críticas ou dúvidas.
Venho praticando EMDR desde 1999 coincidindo com minha mudança para Brasília onde vivo desde então. Aprendendo com a experiência e ajuda de colegas, leituras e listas de discussão. Quando comecei não tínhamos toda a estrutura que temos hoje composta por treinadores, supervisores, cursos complementares sobre dissociação, TEPT, Trauma Complexo, Dissociação, Ego States Therapy,  etc.  Naquela época tínhamos uma treinadora que vinha duas vezes por ano, os livros em inglês e espanhol e uma lista de discussão por email em inglês. Me apoiava também no  que dava sustentação à minha clínica analítica corporal reichiana, a saber: o conhecimento do corpo e as funções dos bloqueios emocionais (couraça caracterológica) e análise do caráter. A compreensão da importância da relação terapêutica desde os seus pilares humanistas e psicanalíticos com ênfase no inconsciente, na transferência, contratransferência, resistência, contrarresistência, apoio e confrontação, dificultando ou facilitando a elaboração dos conflitos e traumas emergentes. No que tange à relação terapêutica, a importância de um encontro vivo, guiado pela empatia, que na linguagem reichiana seria a percepção de campo, em que a sensação do terapeuta é levada em consideração na avaliação e compreensão daquilo que se comunica. Temos também a leitura corporal, a observação da respiração, dos gestos espontâneos, o olhar enquanto se fala, a postura, as mudanças de coloração da pele, o caminhar, o chegar e o partir e tudo o mais que se pode perceber quando se abre o olhar com a mente de principiante para além da fala.
Quando o EMDR entrou na minha prática pude confrontar-me com questões que antes não me tinham sido postas. A natureza da memória traumática e a possibilidade de elaborá-la numa dimensão mais ampla que se traduz no que chamamos de Dessensibilização e Reprocessamento. Eu já conhecia o poder dos movimentos oculares através da prática dos “actings” que são uma sequência de movimentos, a começar pelos olhos, desenvolvida pela Vegetoterapia Caractero-Analítica criada por Wilhelm Reich e sistematizada por Federico Navarro que visa o desbloqueio da energia no corpo e o estabelecimento do fluxo e da pulsação energética como base referencial para a saúde física e psíquica. No entanto, integrar o protocolo básico do EMDR potencializou a eficácia dos actings pois vi que o EMDR seria mais uma estratégia de desbloqueio. EMDR também trouxe a possibilidade de oferecer uma nova modalidade de psicoterapia breve. Isso me exigiu um reposicionamento frente aos aprendizados anteriores sem desprezar seu valor e  importância quando o objetivo da terapia era alcançar os resultados propostos pelo modelo reichiano. EMDR entrou aí
como uma ferramenta complementar com ótimos resultados.  Até então, mais uma técnica!
Quando Francine Shapiro, tomada pelo entusiasmo vindo do sucesso do EMDR com outros transtornos além do TEPT, naturalmente requisitou para o EMDR o status de abordagem terapêutica, permitindo que os terapeutas se intitulassem terapeutas de EMDR, mantive minha orientação teórica e técnica e passei a ajudar colegas que me pediam supervisão a situar e diferenciar o EMDR frente às questões de cada cliente. Uma coisa importante que aprendi com o Dr. Reich é que a técnica deve ser adaptada ao paciente e não o contrário. Isso implica em desenvolver domínio sobre o manejo da transferência e o uso de técnicas que podem produzir efeitos desejáveis e adversos tais como: ab-reações emocionais, as reações dissociativas de congelamento e as defesas vindas do padrão lutar ou fugir. Além disso, apurar o tino clínico para diferenciar o grau de tolerância que cada paciente apresenta ao movimento da energia no seu sistema corpo-mente. Vi também que muitos terapeutas estavam aplicando EMDR de forma mecânica, sem se preocupar com a importância da relação terapêutica e tratando o método como uma panaceia.
Uma nova necessidade de reposicionamento se mostrou evidente quando os avanços da internet trouxeram os aplicativos de conversas ao vivo tipo Skype. Alguns clientes que se mudaram de Brasília e queriam continuar suas terapias comigo me solicitavam que continuasse a atendê-los(las). Em princípio, relutei um pouco em aceitar. Como poderei dar continuidade ao que  penso ser a melhor maneira, para mim, de atender sem perder a qualidade? Responderei mais adiante.
No momento em que escrevo este texto, estamos em 21 de março de 2020 e a pandemia causada pelo covid-19 ainda não chegou ao seu pico. Ontem a previsão feita pelo ministro da saúde foi de que chegaríamos ao auge da crise em abril. Os Conselhos de Psicologia liberaram psicólogos a atender através dos aplicativos online. A orientação é que se evite sair de casa. Alguns colegas de EMDR pediram ajuda sobre como fazer atendimento online. Vi algumas orientações importantes e resolvi compartilhar através deste texto minha experiência.
A colega e treinadora de EMDR Rita Silva enviou um breve texto que dá orientações práticas e agregou algumas outras oferecidas por um psicólogo de Portugal sobre como atender crianças online com EMDR. Acredito que são recomendações válidas e que devem ser seguidas. Estão inseridas abaixo.
Porém, trago aqui outros aspectos da clínica que considero importantes serem levados em consideração como uma ampliação ou aquisição de recursos que podem dar mais segurança ao terapeuta e ao paciente.
Relação terapêutica
Minha primeira escola de escuta terapêutica foi no ano de 1978, ainda estudante, no estágio em que participei oferecido pelo psicólogo José Luis Belas, no Hospital Estadual Psiquiátrico de Jurujuba, em Niterói-RJ. Belas é um psicólogo rogeriano e com ele aprendi a escutar pacientes através da Empatia, Congruência e Aceitação Incondicional. O hospital oferecia atendimento ambulatorial a pacientes não internados. Minha segunda escola foi psicanalítica na qual estudei o emprego da atenção flutuante e o manejo da transferência conduzindo à elaboração. A terceira foi reichiana. Reich, em sua perspicácia descobriu a importância de se sentir no corpo as sensações que emergem do contato com cada paciente. Ele chamou isso de sensação de órgão e considerava a base para um método de investigação da vida viva. À forma de entender as sensações chamou de pensamento funcional. Não vou me deter nestes aspectos pois tomaria muito tempo e nos distanciaria da reflexão proposta. Acrescento apenas que toda esta compreensão foi bastante aprofundada com a ajuda dos estudos teóricos e técnicos de Milton Erickson, Peter Levine e, a partir de 1994, dos Seminários Técnicos do Dr. Jorge Stolkiner.
Até então, os elementos que funcionam como base de sustentação e impulsionamento do processo terapêutico são baseados na combinação destes fundamentos da relação terapêutica com as técnicas de desbloqueio energético. Com a entrada do EMDR no meu campo de ação, entraram o protocolo básico e os Estímulos Bilaterais aos quais sou muito grato a Francine Shapiro.
Os três tipos de escuta integrados; empatia, congruência e aceitação incondicional, a atenção flutuante e a percepção de campo através da sensação ganharam então mais um aliado: o protocolo básico e a E.B..
O manejo da transferência
Ainda na  década de 1980 tive contato com um texto de Davis Boadella chamado “Transferência, Ressonância e Interferência”. Se você chegou até aqui nesta leitura, certamente seu interesse vai aumentar quando ler o que tenho a dizer sobre este texto e vai querer lê-lo também. Veja como encontrá-lo nas referências bibliográficas abaixo.
Boadella analisa  o fenômeno da transferência e da contra transferência a partir da concepção de Reich que define a personalidade em três camadas: Máscara, segunda camada e núcleo. Sendo máscara a parte mais superficial da pessoa, segunda camada é o recalcado, aquilo que Jung chamou de sombra e onde podemos incluir o trauma e tudo o mais que a máscara rejeita. E o núcleo é o cerne biológico, de ondem partem os impulsos mais genuínos.
(No sistema criado por Richard Schwartz, Internal Family Systems, o núcleo é o Self com seus atributos a que chama de 8Cs. Calma, Conectividade, Criatividade, Confiança, Coragem, Clareza, Curiosidade e Compaixão.)
Este texto deu mais sentido e orientação à minha prática e confiança na direção proposta pela visão reichiana. Certamente que ao longo dos anos, muitas terapias, meditação Vipassana, análises e estudos, muitos elementos foram acrescentados aos eixos referenciais. Como este texto não é uma auto biografia, o que segue a partir daqui é o que mais interessa aos terapeutas de EMDR que já atendem ou querem começar a atender online. Tudo que apresentei até aqui foi minha base teórica e a direção do tratamento mesmo com EMDR, para além do Suds 0 e do VOC 7.
EMDR enquanto movimento
Enquanto EMDR era somente uma técnica para trauma, podendo ser empregada em situações de catástrofe tanto quanto em lembranças traumáticas antigas, não precisávamos nos preocupar com o Self. Esta seria uma questão adotada pela abordagem que fundamentasse o terapeuta. Como no meu caso, a abordagem reichiana. EMDR entrou no meu contexto teórico e procurei ajustá-lo ao que tento oferecer aos clientes como uma forma de direcionar meus procedimentos. Vários outros colegas, de muitas abordagens diferentes, fizeram o mesmo. Ou o emprego no atendimento a situações de crise.
Mas, se o EMDR pretende ser uma abordagem, precisa definir uma teoria do Self e a ele direcionar seus protocolos e procedimentos. Caso contrário, seu conceito de cura será limitado ao rápido desaparecimento dos sintomas. Tipo “fast-therapy” sem nenhum compromisso com a realidade emocional e psíquica mais profunda.
Certamente que para situações de crise, EMDR exerce muito bem o seu papel. Porém, a falta de uma possibilidade de analisar as questões num nível mais profundo tende a trazer à tona aspectos destrutivos das personalidades que não foram sequer tocados. Ocorre então o que ocorreu em muitas escolas de terapia. Inveja, competição, disputas de poder sustentados por uma postura arrogante e orgulhosa, vinda da eficácia da técnica e insegura devido à falta de prevalência do Self. Aí vemos terapeutas que se propõem a tratar trauma aprofundando suas divisões internas no contexto relacional do movimento. Como disse uma terapeuta no início da criação do movimento EMDR: “EMDR desperta a cobiça dos terapeutas”. De que forma será que isso afeta os clientes?
Reich analisou profundamente o potencial destrutivo do humano num texto chamado “praga emocional” que é encontrado num capítulo de um dos seus livros mais importantes; Análise do Caráter. É perfeitamente compreensível que, à partir daí, nenhuma teoria sobre o psiquismo fique restrita a explicar o comportamento analisando apenas o cérebro sem contudo diminuir a importância da neurociência.
EMDR em ação
A principal função da Estimulação Bilateral (EB) é aprofundar a capacidade de contato permitindo que as cinco partes da memória se integrem e se transformem na direção do self. São elas: Imagem, Significado, Emoção, Sensação Corporal e Comportamentos.
O protocolo básico ativa estes elementos e a EB impulsiona as tendências autorreguladoras através do PAI (Processamento Adaptativo de Informação), reprocessando aquelas memórias. Como afirma o psicólogo e supervisor também pioneiro na difusão do EMDR no Brasil, José Guilherme Duque de Moura, “o PAI é a expressão neurobiológica do SELF”. O processo culmina com a revitalização do sistema corpo-mente-energia. O contato profundo é também impulsionado pela ressonância entre terapeuta e paciente. Conforme disse Boadella, a ressonância pode sofrer interferência da transferência e contratransferência.
A escuta das sensações do(a) terapeuta e do(a) paciente é movida pela intenção terapêutica, que é o motor que aponta na direção do núcleo do paciente. A fase do Reprocessamento (3 a 7), conecta o paciente à sua segunda camada onde está toda confusão mental e emocional causada pelo trauma. É de grande importância que o terapeuta esteja protegidamente sensível e claramente motivado a propiciar que o/a paciente atravesse seus conteúdos traumáticos com a intenção de alcançar o self e não retornar à máscara. Se o terapeuta saiu demasiadamente cansado da sessão é porque não conseguiu alcançar este objetivo. Pode ter paralisado na contratransferência ou se desorientado.
Três posicionamentos diante da relação terapêutica:
1-     Omisso
2-     Confuso
3-     Funcional
No primeiro caso, omite-se a importância da relação terapêutica e a confiança obtida vem apenas da autoridade do terapeuta ou do método, que pode estar sendo empregado de forma mecânica. Veja no texto de Boadella os tipos de defesas que movem as interferências. Este tipo tende a ser um relacionamento de máscara para máscara no qual prevalece a impossibilidade de se falar da relação. O cliente não é incentivado a falar como se sente em relação ao terapeuta, tendendo a fazer um reprocessamento superficial. Obtém algum alívio dos sintomas e termina a terapia tão preso à sua máscara quanto chegou. Os clientes não mergulham nas águas obscuras que os terapeutas não suportam ter que nadar!
No segundo caso, a relação terapeuta paciente tende a ser marcada pela confusão. O cliente não desenvolve suficiente confiança para ser ele mesmo e pode bloquear o reprocessamento por entrar em resistência transferencial. Geralmente esta resistência corresponde a alguma contratransferência encoberta. O paciente pode adotar uma posição passiva, confrontativa ou dissimulada. Geralmente os passivos são tipos orais dependentes que querem e temem perder a proteção do terapeuta/pai ou mãe a quem demandam amor, segurança e aprovação. Só pensam em dar o que se espera deles em troca do amor transferencial. O trauma vem da negligência de suas necessidades emocionais.
Os confrontativos são obsessivos, masoquistas e fálicos narcisistas que são classificados como rígidos. São traumatizados pela rejeição e julgamento excessivo, crítica e vergonha. Os dissimulados são os que estão na posição histérica. Seduzindo e evitando a verdade. A sexualidade é marcada pelo abuso e não aceitação. A transferência é marcada por fantasias e desejos incestuosos. Podem ser também passivo-agressivos, agindo pelas costas de forma perversa. Estes traços de caráter brevemente descritos se engancham com as mesmas características em terapeutas superficialmente ou não analisados e podem fazer com que o reprocessamento seja parcial e igualmente mantenedor da superficialidade caracterológica.
No posicionamento funcional, o terapeuta está aberto a acolher a transferência, reconhecer a contratransferência e apto a despertar mais confiança e coragem para que a profundidade e  efeito do reprocessamento alcance o self em vez de causar um retorno à máscara. Se o terapeuta estiver orientado para o desenvolvimento do self do paciente a Estimulação Bilateral incrementa a exploração do potencial de crescimento latente no espaço relacional. A abertura do self pode ser compreendida como a abertura do coração, ou seja, as qualidades a que se refere Richard Schwartz (IFS) tem relação com sentir-se suficientemente seguro para poder ser mais amoroso e positivo. Para além do padrão lutar-fugir-congelar. Padrão este que condiciona as relações de trabalho, e as disputas de poder.

Atendimento online
A minha primeira reação negativa ao atendimento online deveu-se ao fato de que encontrando pacientes através da tela do computador ou celular poderia estar acirrando a percepção de distanciamento levando o relacionamento a um patamar de máscara para máscara.  Isso poderia ter implicações severas na qualidade do reprocessamento pois, a percepção de distanciamento pode acirrar a percepção do desamparo que pode levar à manutenção de defesas caracterológicas ou despertar muita ansiedade chegando ao pânico. A confiança que uma pessoa tem para mergulhar no reprocessamento de seus traumas é diretamente proporcional ao grau de confiança que tem no terapeuta. E isso vale até que o eixo da confiança seja transferido para si mesmo. Deste ponto em diante, é o self quem cuida. E o terapeuta apenas o reflete.
Portanto, o atendimento online pode propiciar uma percepção de distanciamento e abandono que poderá se refletir na transferência provocando fuga de contato ou da terapia. Um bom reprocessamento, que pode durar algumas sessões, é aquele que culmina na revitalização do sistema corpo-mente-energia e é percebido por ambos.
No entanto, a possibilidade de se obter respostas terapêuticas profundas e eficazes precisava ser reconsiderada a partir do contexto online.
Estas questões devem ser avaliadas em três condições: pacientes que já foram atendidos no consultório e estão fora da cidade; que estão sendo atendidos pela primeira vez, ou seja nunca pisaram num consultório. Vão ser atendidos online por causa de uma condição específica, como na que estamos atualmente (COVID-19) e depois vão dar continuidade no consultório, ou não vão passar de algumas sessões online. Ou ainda, darão continuidade em sessões presenciais quando a crise passar.
Questões a investigar
O fato do/a paciente sair de sua casa ou do trabalho para ir ao consultório implica numa ativação do processo. No atendimento online imaginariamente, o/a terapeuta ‘leva’ seu consultório à casa ou local de trabalho do paciente. Como será que isso estará sendo percebido?
O fato de não podermos ver, sentir e estar no calor do contato físico, pode ser um fator que influencia no reprocessamento? Como acirrar a percepção de presença e intenção terapêutica?
Confiar apenas na aplicação dos EBs é suficiente para alcançar a resposta de reprocessamento mais profunda?
O manejo da vergonha
A vergonha tem o enorme poder de se esconder. Está sempre presente de forma oculta ou manifesta. Fique atento(a) aos sinais de que a/o paciente pode estar se inibindo por vergonha. Na dúvida leia meu texto sobre “A clínica da vergonha” que está na bibliografia abaixo. E também as aulas gratuitas que disponibilizei sobre o tema da vergonha.
A vergonha oculta pode interferir de maneira decisiva no atendimento online, não dando tempo para agir.

Sugestões de recursos adicionais
Perguntar ao paciente como é para ele/a ser atendido desta forma. Deixar que fale um pouco sobre suas sensações e sentimentos antes de avançar no reprocessamento. Aceitar as impressões e opiniões mesmo que negativas. Se o cliente se mostra confortável não avance sem antes expressar seu verdadeiro sentimento sobre esta nova condição. Por exemplo: “Que bom que você está confortável. Eu ainda estou me adaptando. É um pouco estranho, mesmo sabendo da importância de termos esta oportunidade de trabalharmos suas questões”.
É bom sempre distinguir o sentimento da interpretação sobre o fato. Isso remete a um encontro regido pelo amor à verdade e não apenas pelo esforço em manter as aparências. O vínculo terapêutico só é sustentado pelo amor à verdade.
Caso o paciente esteja desconfortável incentive-o/a  falar sobre isso. Avalie a necessidade de empregar um pouco de EBs na percepção ruim até que esta se dissipe.
Use respiração profunda, de 2 a 5 min, antes de começar a reprocessar.
Os pacientes responsivos são mais desbloqueados nas vias eferentes, ou seja, descarregam com mais facilidade e tem mais contato com sensações corporais. Avalie se a pessoa que você  está atendendo tem facilidade de sentir sensações no corpo. Se não, considere a possibilidade de criar recursos corporais. Peça-lhe que sinta as sensações das áreas de apoio do corpo: pés no chão, cotovelos, quadris e costas apoiados na cadeira, pescoço relaxado, etc. Se ainda for difícil obter percepções de sensações, peça-lhe que massageie vigorosamente o rosto, o couro cabeludo e a nuca até que a respiração se solte e se produza respiração de coerência. Que é quando o S.N. Autônomo expressa coerência entre o ramo simpático e parassimpático. Ocorre uma respiração espontânea, desbloqueada.
O “lugar tranquilo” deve ser encontrado no corpo e a respiração desbloqueada é o melhor caminho. É uma mudança de estado favorável para recursar.  Quando peço ao cliente que experimente estas técnicas antes do reprocessamento em si e ele(a) alcança uma sensação de leveza e abertura por ter dissolvido temporariamente seu estado de tensão, explico-lhe que devemos encarar o reprocessamento da mesma forma. Ou seja: apareça o que aparecer; emoções negativas, outras lembranças, pensamentos negativos etc. o efeito resolutivo do reprocessamento deverá ser melhor ainda do que esse. Mas, para isso sua atitude deve ser aberta, curiosa e desprovida de julgamento. Demostro ainda que confio na sua percepção e que ele(a) é quem vai me dizer se está realmente bem. Quando noto que se trata de uma pessoa muito insegura e que tende a disfarçar seus sentimentos mais difíceis, digo-lhe que seu cérebro vai tentar protege-la(o) do perigo e, por mais sincera e verdadeira que seja sua disposição para acessar todos o material ligado ao trauma, seu cérebro não vai deixar que ela(e) se machuque. Assim, previno a possibilidade de que alguma parte resistente tente assumir o controle do reprocessamento.  Vê-se aqui a importância de que a aliança terapêutica esteja bem reforçada para antes de seguirmos com o reprocessamento. Principalmente em se tratando de momentos de crise quando a tendência a querer negar ou distorcer a realidade é maior. Mesmo que a realidade objetiva não seja facilmente objetivável como a que vivemos com o COVD-19. Certa vez, num grupo de formação terapêutica, propus um exercício para demonstrar o que é Aliança Terapêutica. Dividi o grupo em duplas e dei umas fitas de pano para cada par. Lado a lado, eles amarraram o joelho direito no esquerdo do(a) parceiro(a). Tiveram que caminhar dessa forma. Antes determinamos quem seria o terapeuta e quem seria o paciente. O paciente era instruído a andar em seu próprio ritmo, ora acelerando, ora diminuindo a velocidade. O que esta no papel de terapeuta tinha o desafio de seguir o paciente no seu próprio ritmo. Depois cada um falou como foi difícil!
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Seguem as instruções que a treinadora Rita Silva gentilmente me autorizou a publicar:
Pessoal seguem algumas orientações especificamente de EMDR para esse momento de crise mundial pois será mais seguro para todos se mantivermos os atendimentos on-line conforme orientação do conselhos de psicologia.
Espero que vocês fiquem bem e que continuem fazendo o trabalho necessário.
Caso precisem de supervisão contem comigo!
Forte abraço,
Rita
Orientações para atendimentos on-line com EMDR:
1- Tenha cuidado ao usar EMDR on-line em casos complexos. Orienta-se não utilizar com tais pacientes pois são necessários manejos muito específicos.  Lembre-se: muito CUIDADO. Avalie seus pacientes criteriosamente.
2- Instale sempre recursos em todos os seus pacientes on-line. Em Pacientes complexos, talvez o melhor seria reprocessar quando tudo voltar ao normal no formato presencial.
3- Tenha o telefone do contato de emergência caso precise contactar alguém se necessário;
4- Seu paciente e você deverão estar em uma sala fechada e usar fones de ouvido. Privacidade e confidencialidade, teremos de preservar.
5- MB em adultos: podemos usar o abraço da borboleta, ou então que o paciente encontre um ponto do lado direito na parede e um outro do lado esquerdo e o terapeuta ajudará a afinar a velocidade e o ângulo dos olhos. Também temos a estimulação bilateral nas pernas do paciente que o terapeuta poderá ensinar e ditar o ritmo.
6- Dê continuidade as sessões de reprocessamento de acordo com seu plano de tratamento.
7- Sempre utilize técnicas de contenção ao final de todas as sessões on-line. Consulte seu manual de EMDR.
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Logo abaixo segue orientações de Luis Filipe Gomes, um colega de Portugal, para atendimentos de crianças on-line que compartilho com vocês.

Indicações para consultas ON-LINE para crianças ( NÃO SE ESQUEÇA QUE PARA FAZER EMDR EM CRIANÇA TEM DE ESTAR HABILITADO  OU TER EXPERIÊNCIA PARA ISSO) Se não sente essa habilitação indique um colega que possa fazê-lo em segurança.
1-     1-Preparação
a)Verifique a ligação à internet. Pelo menos 40 mega de download e de upload. Pode fazer o teste da sua internet aqui https://www.minhaconexao.com.br/. Ligue-se com um cabo ao seu router pois muitas vezes a ligação WIFI não é suficiente. Assegure-se que do outro lado  também existe uma velocidade apropriada.
b)Verifique se a criança tem materiais ao  seu dispor ( playdoh) plasticina lápis de colorir, bonecos de pelúcia papel etc.
c)Escolha um dos adultos da casa para fazer isto com ele. i.e a mãe o pai ou ambos
d) Instrua o adulto e mais tarde a criança sobre as limitações da consulta on line.
2- Lugar tranquilo ou feliz
a)     A criança pode fazê-lo em papel ( desenho) ou em plasticina. Peça para partilhar consigo ( esta partilha quando on-line ajuda a estabelecer relação) Instale esse lugar situando sensação boa no corpo. SINAL STOP e respiração- Faça a respiração em conjunto com pai ou mãe ( ajuda na reconstruir de apego)3- Alvo. Nas criança trabalhamos aquilo que elas trazem para a consulta e não um alvo pré-definido mesmo que tenhamos conhecimento dele ( pesadelos ou sonhos ruins, o vírus mau, ou qualquer outra situação que pareça ser traumática). Se a criança não abordar nenhum alvo preocupe-se em instalar recursos positivos  e não em trabalhar sobre trauma. Se a criança disser que algo a incomoda então pode pedir para desenhar o que a incomoda ou incomodou. Levante o ICES adaptado à idade( crianças pequenas não terão cognição). Se disserem "TENHO MEDO" situe essa emoção no corpo e retire o SUDS através de escala ou através de sinal GRANDE PEQUENO MAIS OU MENOS ou  RUIM
b)      4- Proceda os movimentos bilaterais ou peça para ela fazer o abraço de borboleta ou caso escolha tapping,  o pai ou  mãe podem (depois de instruídos) fazer isso com eles. Esteja atenta(o) a sinais corporais e ab-reacções . Não faça cadeias muito longas ( o seu controlo on-line é menor!) Pode ir pedindo para a criança desenhar o que fôr surgindo...Não volte ao alvo se estiverem surgindo conteúdos mas certifique-se que pode continuar. PERGUNTE entre as séries. Se fôr necessário volte ao lugar feliz( tranquilo)
c)     5- Depois do SUDS zerar  pode pedir para a criança desenhar de novo. Muitas vezes esta será a CP ( Certifique-se) e se assim fôr,  associe a uma sensação boa no corpo ou a um talismã que a criança queira fazer em playdoh, por exemplo. Instale a Sensação boa e meça a potência da VOC. Quando estiver com VOC sete reforce essa sensação.
d)     6- Faça o escaneamento corporal ( nas crianças tudo é registado no corpo). Pode fazê-lo brincando ( usando um boneco- figura) para ver se todo o corpo está  tranquilo. Se houver perturbação,  volte a dessensibilizar essa mesma sensação até zerar.
e)     7- Feche a  sessão com um desenho com corações  que representem aquilo que a criança goste mais.
f)       SESSÃO INCOMPLETA. Diga à criança que o tempo está chegando ao fim, mas que vão tornar a ver-se para diluir todas as más sensações. Utilize um boneco  seu ( um  elefante, um urso gordo, um animal grande, mas dócil) para conter qualquer coisa negativa dizendo que ele ficará com aquilo pois é forte e gordo e pode guardar até à próxima sessão.
19 de mar de 2020
BIBLIOGRAFIA
Boadella, D. Transferência, Interferência e Ressonância, Cadernos de Biodinâmica 3, 1980. Summus
Reich, W. Análise do Caráter. M.Fontes, 1995.
Stolkiner, J. Abrindo-se aos Mistérios do Corpo, 2008, Ed. Alcance, P. Alegre.
Schwartz, R. Terapia dos Sistemas Familiares Internos, Rocca, 2004.
Rogers, C. Tornar-se Pessoa, M. fontes, 1961.
Teixeira, A. R. , A clínica da vergonha, 2020

Sobre o autor: Antonio Ricardo S. Teixeira é psicólogo clínico, CRP-01-6578, formado pela Universidade Sta. Úrsula-RJ em Dez. 1980. Orgonoterapeuta pelo CIO-Centro de Investigação Orgonômica Wilhelm Reich-RJ; Open-Orgonomy; Hipnoterapeuta Clássico (SOHIMERJ) e Ericksoniano. Terapeuta e Supervisor de EMDR- Eye Movement Desensitization and Reprocessing. Formado em Somatic Experiencing; Neuropsicólogo; Bodynamic (Pratictioner em formação). Atualmente reside e trabalha em Brasília-DF onde dirige a Somática Psicoterapia Corporal Integrativa www.somaticapsi.com.br . Email a.ricteixeira@somaticapsi.com.br . Onde atende individualmente e em grupos. Desenvolve estudos e promove palestras, workshops, seminários e cursos. Praticante de AIKIDO e Meditação Vipassana.
Membro de Associação Brasileira de EMDR;
Associação Brasileira do Trauma;
Open-Orgonomy